quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Reedições de dois álbuns históricos reverberam a eternidade de Cartola



Cartola (1908 – 1980) começou a compor em fim dos anos 1920. Ganhou alguma projeção na década de 1930. Mas foi somente em 1974 que conseguiu gravar o primeiro álbum solo. Esquecido ao longo das décadas de 1940 e 1950, tinha sido redescoberto na década de 1960, mas nem por isso as portas da indústria da música foram abertas com facilidade para o compositor carioca. Cartola, o tardio álbum de 1974 editado em junho daquele ano pela gravadora independente Discos Marcus Pereira, descortinou todo um horizonte musical para o bamba de Mangueira.

Histórico, o álbum de 1974 ganha edição em CD à altura da importância do disco. O Cartola de 1974 e o Cartola de 1976 – o segundo álbum solo do artista – estão sendo relançados na caixa Todo tempo que eu viver, posta no mercado pela Universal Music neste mês de agosto com textos e curadoria de Eduardo Magossi.

Além dos dois álbuns, que voltam ao catálogo em edições remasterizadas e com encartes que reproduzem as letras (mas não avançam muito na recuperação das fichas técnicas), a caixa embala a inédita compilação Tempos idos, com 10 fonogramas avulsos da discografia de Cartola.

A coletânea tem alto valor documental. Mas o supra-sumo da caixa são mesmo os dois álbuns. Com arranjos e regências do maestro Horondino José da Silva, o extraordinário violonista Dino Sete Cordas (1918 – 2006), o Cartola de 1974 foi produzido por João Carlos Botezelli, o Pelão. Foi gravado e mixado somente em quatro dias.Tempo suficiente para gerar obra-prima.

Gravado com som que remete aos conjuntos regionais da época pré-Bossa Nova, o repertório do Cartola de 1974 apresentou músicas que se tornaram clássicos como Disfarça e chora (Cartola e Dalmo Castello) e Corra e olhe o céu (Cartola e Dalmo Castello). Outras músicas, como os sambas Acontece (1972), Sim (Cartola e Osvaldo Martins, 1952 ) e Tive sim (1968), ganharam enfim registro na voz rústica e sensível do compositor.
 
Produzido por Juarez Barroso, com arranjos do mesmo Dino Sete Cordas que orquestrou o álbum de 1974, o Cartola de 1976 bisou o alto nível poético e melódico do disco anterior. A rigor, o repertório soa até ligeiramente superior. Basta dizer que se trata do álbum que apresentou As rosas não falam (faixa gravada com a caixa de fósforos percutida por Elton Medeiros) e O mundo é um moinho (faixa gravada com o toque do violão do então estreante Guinga), emblemáticas composições feitas por Cartola em 1975. Outra grande novidade foi Cordas de aço, música composta por volta de 1966, mas somente registrada naquele ano de 1976.

Se o compositor brilhava, o intérprete valorizava o cancioneiro sublime. Basta ouvir a interpretação de Cartola para Preciso me encontrar, o samba existencialista que ganhara de Candeia (1935 – 1978) e que gravou com o toque do fagote de músico não identificado na ficha técnica original e tampouco na ficha técnica da reedição deste ano de 2016.

Enfim, a caixa Todo tempo que eu viver – batizada com verso da composição de Fiz por você o que pude (1967) – embala dois álbuns perfeitos que vão ressoar por toda a eternidade como exemplos da melhor produzida no Brasil em tempos idos. (Cotação: * * * * *)

(Crédito da imagem: reprodução da capa da caixa Todo tempo que eu viver. Cartola em foto de Milton Montenegro)

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